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MEDITAÇÃO DIÁRIA

sábado, 5 de julho de 2008

Eu acho que eu vi um gatinho... evoluindo


A dicotomia entre dog persons e cat persons já virou padrão em língua inglesa: metade da humanidade teria uma identificação instintiva com os cães, enquanto a outra metade seria atraída da mesma forma visceral por gatos. Se esse é mesmo o caso, eu sou uma dog person, sem dúvida. Que os donos desses bichos não me crucifiquem: sempre senti um vago arrepio na espinha (vulgo caganeira) na presença de felinos grandes ou pequenos. O irmão gêmeo da desconfiança, no entanto, é o fascínio. O magnetismo inspirado pelas patas com almofadinhas e os olhos amarelados e oblíquos é inegável. O que me dá uma ótima desculpa para fazer as pazes com vocês, cat persons do mundo todo, relatando como o bichano no seu tapete, bem como as onças-pintadas, suçuaranas e jaguatiricas das selvas, apareceram e evoluíram.

Para começar, a velha briga de gato e cão (invertendo a ordem normal dos fatores em nome da perspectiva felinocêntrica) não passa, originalmente, de um conflito familiar. Como carnívoros que são (uso a palavra no sentido mais preciso, relativo à ordem de mamíferos chamada de Carnivora em latim, e não na acepção mais ampla de “bichos que comem carne”), felídeos e canídeos são parentes mais próximos entre si do que nós somos aparentados a qualquer um deles. Pode-se mesmo dizer que eles são variações do mesmo tema, apesar do aspecto superficialmente diferenciado.

A segunda coisa a ter em mente sobre as origens felinas é que a incrível semelhança física e comportamental entre bichanos domésticos e seus parentes selvagens se explica facilmente: todos os gatos, grandes e pequenos, são uma invenção evolutiva recente – aliás, bem mais recente que o grupo dos grandes macacos, ao qual pertence o homem. Enquanto criaturas como nossos primos chimpanzés já estavam por aí há uns 20 milhões de anos, as melhores estimativas usando dados de DNA e fósseis apontam que o ancestral comum de todos os felídeos vivos hoje andou por aí há 11 milhões de anos, provavelmente em algum lugar da Ásia tropical.

Um pacote que deu certo
É em parte graças a essa origem relativamente nova que se deve a grande conservação de forma e comportamento nas quase 40 espécies de gatos conhecidas. O biólogo Eduardo Eizirik, pesquisador da PUC-RS e co-autor de um monumental “álbum de família” dos felinos em 2006, disse-me certa vez que outro fator por trás dessa estabilidade é o sucesso: em time que está ganhando não se mexe, e os gatos teriam chegado a uma fórmula biológica na qual qualquer alteração séria tornar-se-ia um passo para longe da perfeição.

A idéia é tentadora. Parece casar bem com o fato de que os felinos são predadores poderosos em quase todos os ambientes terrestres do mundo moderno, das florestas equatoriais ao gelo da Sibéria e do Alasca (ocupado por tigres e onças-pardas, respectivamente). A desvantagem – para os cientistas, claro – é que essa expansão rápida por toda a Terra “apaga” parcialmente os sinais de parentesco entre os subgrupos de felídeos, contou-me Eizirik, de maneira que fica difícil entender com precisão a história evolutiva das espécies do grupo.

A boa notícias é que é mais fácil recolher tais pistas no acúmulo de mutações do DNA felino. Alterações na seqüência das “letras” A, T, C e G (os nucleotídeos, unidades químicas básicas da molécula da hereditariedade) ajudam a agrupar os felídeos em unidades menores de parentesco. E a velocidade estimada dessas mudanças traz um “tique-taque” do relógio evolutivo o qual, por sua vez, leva-nos a uma data para os eventos de separação entre linhagens, calibrada com a ajuda de fósseis dos mais antigos ancestrais conhecidos de cada subgrupo.

O que as análises conduzidas pelo pesquisador da PUC e seus colegas mostram é que o primeiro grupo de felinos a se separar dos demais é o dos chamados grandes gatos, ou gatos que rugem: leões, tigres, onças, leopardos e os menos conhecidos leopardos-das-neves e leopardos-nebulosos (você pode ver um belo exemplar de leopardo-das-neves, animal símbolo do Cazaquistão de Borat, na foto acima). Esse grupo se separou muito cedo dos demais felinos, há cerca de 10,8 milhões de anos, segundo as melhores estimativas.

É interessante notar que, segundo o grupo de Eizirik, nossas onças-pintadas são primas mais próximas dos leões do que os tigres. Além disso, as suçuaranas ou onças-pardas (uma delas aparece na foto abaixo) não são onças coisíssima nenhuma: na verdade, elas e seus parentes mais chegados, os velozes guepardos africanos, teriam divergido da grande família felina há 6,7 milhões de anos, estando, na verdade, relativamente perto dos gatos domésticos.

Se você está se perguntando onde foram parar os famosos tigres-de-dente-de-sabre nesse amontoado de galhos, saiba que essa é a pergunta errada: os dentes-de-sabre (jogue fora o “tigre” do nome, por favor) não são felídeos verdadeiros. Tanto os genes quanto os fósseis concordam que essas criaturas pertencem a um ramo paralelo de carnívoros, que divergiu da linhagem que levaria aos gatos de verdade bem antes que o ancestral comum deles tivesse surgido.

Caçando ratos em Chipre
E quanto aos tataravós diretos dos nossos próprios bichanos? Bem, há poucas dúvidas de que a linhagem deles tenha surgido há uns 3,5 milhões de anos, e que a espécie diretamente por trás dos gatos lambedores de leite de hoje em dia seja a Felis sylvestris lybica, bicho comum nas estepes do Oriente Médio e do norte da África quando surgiam as primeiras civilizações humanas.

Gatos são bichos independentes por natureza, e a história de como eles foram integrados ao convívio humano parece, curiosamente, seguir esse padrão. Enquanto praticamente todos os animais domésticos do Ocidente foram amansados pela primeira vez na região que vai da Palestina ao Iraque, os primeiros indícios de felinos domesticados vêm da ilha de Chipre, tendo cerca de 9.000 anos. Ali, alguém quis ser enterrado com seu querido bichano, a julgar pelo conteúdo de um túmulo cipriota dessa época.

É possível que os inícios da agricultura e do acúmulo de grãos, um verdadeiro ímã para os roedores, tenham também levado os humanos a valorizar e mimar os gatos que apareciam na vizinhança de seus antigos silos para caçar camundongos. Nesse ponto a domesticação dos felinos também é sui generis, já que quase todos os bichos que transformamos em nossos companheiros são herbívoros ou onívoros que vivem em bandos. Os gatos, predadores solitários, fogem a essa regra. Mesmo assim, um indício de que eles mantêm sua natureza independente é o fato de eles entenderem muito menos palavras humanas do que os cães, conforme experimentos demonstraram.

Antes de encerrar o presente passeio pela evolução felina, não custa lembrar um detalhe óbvio, mas importante. A própria variedade de raças e formas que a intervenção humana conseguiu engendrar a partir dos bichanos originais é uma prova eloqüente de como a evolução age em contextos mais naturais. Bastam algumas décadas de cruzamento guiado para produzir bichos tão diferentes quanto um persa e um siamês – mais distintos entre si do que duas espécies diferentes de gato-do-mato, por exemplo. Se a necessidade e o capricho humano criou essa diversidade a partir do mesmo ancestral, fica difícil duvidar que a natureza tenha feito a mesma mágica com milhões de anos ao seu dispor.

Fonte: http://www.visoesdavida.globolog.com.br/

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